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A evolução humana é o resultado dos sonhos de liberdade, das lutas contra as injustiças, da procura da felicidade e do respeito ao próximo. A visão contemporânea e os interesses individuais ou de grupos turvam a mente humana e destorce a razão. A história é o caminho da reflexão do homem. O porquê de cada ação tem de ser analisado e os erros do passado não devem ser repetidos. A saída do obscurantismo, com o despertar do humanismo, a reforma religiosa, a invenção da primeira prensa por Johann Gutenberg, as grandes descobertas pelos navegadores -novas terras, povos exóticos e culturas estranhas - abriram inúmeros horizontes à humanidade. No entanto, turvou-lhe a razão. Este livro pretende mergulhar o leitor nessa época revolucionária, onde o homem, como hoje, sente-se confuso com os novos rumos. O local é o nordeste do Brasil. O início 1637. Essa região transformara-se em um grande babel com interesses conflitantes. No cenário de embates, participavam: portugueses, espanhóis, italianos, holandeses, belgas, índios e negros tomando partido, e outros, de fora, assistiam os combates, desejando que as refregas se prolongassem o maior tempo possível, visando a consolidação de uma nação livre - Palmares. A base do livro foi a pesquisa. Os locais e as personalidades históricas tomam parte da narrativa, contudo não dialogam. Já as personagens de ficção participam ativamente das ações, romances e conceitos ideológicos, religiosos e psicológicos. Toda história sobre Palmares, relatada nos livros atualmente editados, foi elaborada e calcada em pesquisas documentais dos inimigos daquela nação, portanto uma visão unilateral. Assim, por deficiência de informações, provavelmente perdidas no tempo, este autor ousou criar a figura do pai de Zumbi - Zumadunu - e da sua mãe - Arutirene. A história de fundo é real, no entanto, aquela referente às personagens é criação deste autor; por outro lado, quem garante que não foi assim que os fatos se passaram. O autor
Airton Lócio consegue, de forma primorosa, nos brindar com uma envolvente aula de História, ministrada com rara competência, relatando a saga do exército Holandês no Nordeste brasileiro, ZUMADUNU, em terra arrasada ao longo do reino da liberdade, focaliza, com extrema sensibilidade, que prende a atenção desde a primeira linha até o final, numa leitura que não se interrompe, uma página épica de nosso passado, mesclando fatos históricos, com a vida em comum, no dia-a-dia do Nordeste, e ainda nos apresenta, de forma saborosa, descrições dos países de alguns figurantes que vieram para o Brasil, para aqui construir a Nova Holanda.
A criatividade do romance é profundamente sentimental, e arremete o leitor a um verdadeiro cadinho de raças, de credos e de costumes, dissecando de forma extremamente humanista as personalidades do invasor Maurício de Nassau, e a estratégia desesperada do Conde Bagnuolo, para retardar o impetuoso avanço das poderosas tropas holandesas em direção da Bahia.
Pesquisando com vigor vasto espectro de documentos históricos de nosso passado Airton Lócio traça e registra um dos mais estranhos paradoxos da condição humana daquela época, e que, infelizmente, ainda persiste embora de forma diferenciada nos dias atuais: a sistemática ambição de países mais fortes e mais ricos pela conquista de novas terras para servir de fontes de riquezas, subordinando-as aos seus desmedidos interesses colonialistas, sem lembrar das raízes e dos sentimentos dos povos submetidos pela força das armas.
Contra o pano de fundo de um período de reformas religiosas e de grandes descobertas, o Autor descreve conflitos amorosos, densos e intimamente belos; sobrepaira, de forma profunda, sobre as refregas individuais e coletivas, descreve as lutas, as retiradas estratégicas, a destruição no rastro das batalhas, todas as reações naturais dos contendores, e à sua volta, buscando preservar uma nação que sonhavam para a sua gente.
A partir daí, Airton Lócio ilumina a sua narrativa extraordinária, e torna reais, não apenas lugares e acontecimentos, mas cria personagens fascinantes, perfeitamente situados na vivência daqueles dramáticos fatos, e então, o seu trabalho se torna verdadeiramnete hipnotizador. Em estilo descritivo Airton Lócio assinala a legenda dos presságios de Davice, figura singular de sacerdote e vidente, e ressalta advertências explicitas para seu apadrinhado Zumadunu, que passa a ter visões surpreendentes do futuro grande herói dos Palmares, que viria a ser o seu própio filho, Zumbi.
Seguindo adiante o Autor perscruta a intimidade de cada personagem, heróis todos eles, cada um a seu modo, fazendo aflorar, com rara maestria, os detalhes da terra, sua fauna e flora, a densidade humanamente sensual dos protagonistas, emocionantes nos seus relacionamentos, até mesmo quando se frustam diante dos seus destinos, bruscamente interrompidos pela crueza das batalhas, ou sedimentadas por sentimentos marcantes de muita paixão e amor.
Pode-se dizer, enfaticamente, que Airton Lócio realiza uma verdadeira anatomia do processo de tentativa da implantação de uma Nova Holanda no Brasil, historicamnet correta, desde os primeiros momentos do aporte marítimo da poderosa armada holandesa no Brasil, até as minuciosas incursões terrestres por vasta região do Nordeste, incluindo a dominação de São Cristóvão, então capital de Sergipe D'el Rei; vale, ademais, assinalar, que o Autor, romanceia sua descrição, com a participação de personagens, que sua imaginação criativa adensa e, ao mesmo tempo, suaviza, num estilo cativante, marcante e significativo, que torna a leitura saborosa e apaixonante.
Este livro é um trabalho magnífico, absolutamente incomum em seus objetivos, força, originalidade e perspicácia. Um esforço criativo raro, cuja vívida e penetrante recriação do passado, se presta a isolar e a revelar a impotência do país mais fraco antes os arreganhos da ambição e da covardia moral de governos poderosos, que se impõem pelo poder da força e da violência. O que emerge dessa impressionante análise são páginas que servem de alerta e de inspiração.
ZUMADUNU - em terra arrasada ao longo do reino da liberdade - é um livro que enriquece o nosso patrimônio cultural e nos permite uma nova perspectiva de acontecimentos históricos, que se mostram enriquecidos de uma atualidade, que torna sua leitura cativante e instrutiva.
João Alves Fiho*
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